La Paz, Uyuni e Copacabana: 3 cidades que você não pode deixar de conhecer na Bolívia

Muito além do custo baixo, à medida que avança em desenvolvimento social, nosso vizinho sul-americano multiplica o número de visitantes, que são atraídos pela pluralidade cultural, e, sobretudo, pelos cenários históricos e deslumbrantes que vão desde sítios arqueológicos até um incrível deserto de sal

Vista da noite de La Paz, com destaque para a Illimani, segunda maior montanha da Bolívia e cartão postal do país - Foto: Pinterest/Divulgação
  
Em meio a um mar laranja de casinhas de tijolos e ao caos característicos das ruas e vielas de La Paz, ergue-se o Palácio Quemado, sede do governo boliviano, que sustenta, temblando ao lado da bandeira boliviana, a multicolorida Wiphala. Símbolo da união dos povos indígenas pré-colombianos, a histórica bandeira é também uma síntese das riquezas históricas e culturais, do Estado Plurinacional da Bolívia.

Historicamente prejudicado e empobrecido por batalhas e conflitos  que lhe renderam a perda de mais da metade de seu território para os vizinhos: Argentina, Brasil, Peru, Paraguai e Chile, para o qual lamenta, sobretudo,  sua saída ao mar  o país, onde surgiu o primeiro movimento de independência do mundo (justamente na Plaza Murillo, onde encontra-se o já citado Palácio do Governo), tornou-se um gigante praticamente esquecido, mesmo para nós, sul-americanos. Felizmente, em paralelo aos avanços econômico e social que marcaram sua última década  lhe rendendo a liderança no crescimento econômico na América Sul nos últimos quatro últimos anos consecutivos, além de uma diminuição marcante da pobreza e da desigualdade social , a Bolívia tem multiplicado o número de turistas atraídos por seus cenários, história e cultura.

Sendo o único país a abranger os territórios Amazônico, Altiplânico, Chaco e Andino, a Bolívia conta com paisagens únicas (montanhas, salares, selva, sítios arqueológicos, entres outros) e uma rica diversidade cultural representada em ritos, vestimentas, bailes, músicas, costumes, e obviamente, na composição étnica de sua população  formada por 37 etnias, com presença marcante de grupos indígenas como quíchuas, aimáras, chiquitanos e guaranis.

É para te ajudar a ter um vislumbre de toda essa riqueza natural e pluricultural, que o Petri relata abaixo o que viu em sua viagem de pouco mais de 15 dias, por nosso vizinho sul-americano.

A caótica e multicultural La Paz
Vista aérea do centro de La Paz, com destaque para a Iglesia San Franscisco - Foto: Sans Parapluie
Ponto de partida comum tanto para quem chega por via aérea quanto para quem vem de ônibus, La Paz, erroneamente designada por muitos turistas como capital da Bolívia (na verdade, trata-se da sede administrativa do país, enquanto o Sucre é a capital oficial) impressiona logo de cara por seu cenário distinto e caótico: um sem fim de casas e vielas que se erguem sobre um caldeirão montanhoso incrustado nos Andes. Mais que em qualquer outra cidade, é em La Paz que nos damos conta da pluralidade estampada incluso, como já dito, na nomenclatura oficial da Bolívia: uma mescla riquíssima de povos, histórias, crenças e cenários, que nos apresentam o melhor do espírito latino-americano.


Petri recomenda:

- Mercado de las Brujas: a Bolívia concentra a maior população indígena do continente americano, e o místico Mercado de las Brujas é o local ideal para imergir e compreender um pouco mais sobre as crenças e as tradições dos povos indígenas - e ainda trazer uma lembrança para casa. Muito embora seja complicado determinar com exatidão onde ele começa ou termina, visto que se estende por vielas e ruazinhas de paralelepípedo, com lojinhas fixas e barraquinhas desmontáveis, para encontrá-lo basta subir a rua lateral à imponente Igreja de San Francisco. No mercado você encontrará uma infinidade de produtos relacionados à cultura andina: amuletos e feitiçarias (impossível não estranhar, por exemplo, os fetos de llama), plantas medicinais, souvenires e produtos artesanais.

- Plaza Murillo: local onde surgiu o primeiro movimento de independência de nosso continente, e marco zero da Bolívia a partir do qual se calculam todas as distâncias do país. Essa importante praça é rodeada de prédios histórico, como a sede do Governo e o Parlamento, sendo também um bom local para descansar e observar os nativos, como as conhecidas senhoras aymaras com seus chapeuzinhos cocos. Um detalhe que passa despercebido para a maioria dos turistas e que causa estranheza àqueles que o percebem é o relógio do Congresso, que gira no sentido anti-horário (com os números espelhados e ponteiros girando para a esquerda), lembrando (para além do simbolismo da whipala), que La Paz é um povo sul-americano e que não é comandado pelo norte. Simples e direto!

- Teleféricos: ainda mais impressionante que o contraste entre os prédios da parte central mais abastada e as casinhas que se erguem sobre as montanhas, os teleféricos de La Paz saltam aos olhos de qualquer um. Afinal, a cidade conta com a mais alta, moderna e extensa rede de teleféricos do mundo ao todo são 13 km que cortam grande parte de seu território, passando por 11 elegantes estações. Aproveitando de sua geografia acidentada, e pensado simplesmente como um meio de transporte para os moradores, os "bondinhos" se tornaram rapidamente uma atração turística, afinal aproveitar a facilidade de cruzar a cidade, olhando ela lá de cima é algo que não cansa nunca. Eles funcionam como estações de metrô: são cinco linhas divididas por cores e cada trecho sai por 3 bolívares (R$1,50 na cotação atual).

- El Alto: acima da cadeia de montanhas vista da região central de La Paz, está a cidade vizinha, El Alto. Muita embora os atrativos sejam menores, é aí que estão as melhores vistas de La Paz, incluindo seu principal mirador. Para chegar lá, basta tomar a linha vermelha do teleférico. Recomendo um passeio nos fins de semana, quando ocorre uma feira gigante no - "estilo 25 de Março" , logo na saída da estação.

- Outros: mochileiro sempre no perrengue, tive que evitar os passeios mais caros e disponibilizados por agências de turismo local, deixando infelizmente de visitar alguns dos cartões postais mais famosos da região, tais como: o “Camino de La Muerte” (considerada a mais perigosa do mundo, essa estrada fininha de 80 km de extensão que serpenteia as montanhas à mais de 4500 m de altura); a montanha Illamani, que com sua imponência e picos nevados é o maior símbolo da cidade; ou ainda, visitar o sítio arqueológico de Tiwanaku, que serviu de capital administrativa e ritualística para  império inca, na região, por mais de cinco séculos.

O inesquecível Salar de Uyuni
Após a chuva o deserto de salar de Uyuni vira um espelho que reflete o céu - Foto: Matrixworldhdr


Figura carimbada em qualquer lista de “lugares mais incríveis”, ou “exóticos” do planeta, a pequena Uyuni é a cidade mais visitada da Bolívia, e não poderia ser diferente. Localizado nos departamentos de Potosí e Oruro, a mais de 3.600 m acima do nível do mar, seu famoso salar é simplesmente o maior e mais alto deserto de sal de todo o mundo: ao todo são 10.582 km² de um infinito branco. A imensidão é tamanha que o Salar de Uyuni é o único ponto natural que pode ser visto do espaço, tendo servido de guia para os astronautas da Apollo 11, que chegaram à lua em 1969. 

Mesmo não sendo adepto de pacotes de turismo fechados, este é um dos casos em que é indispensável recorrer a um; e para conseguir basta bater à porta de uma das dezenas agências de viagem que contrastam com o clima árido e a desolação de uma cidadezinha simples e perdida perto dos Andes. Como minha viagem abarcava mais do que a Bolívia, tive que recorrer ao tour de um dia, mas obviamente indico o de três.

Como é o tour:

- Cementerio de Trenes: construídas no século 19 para atender o escoamento de minérios, as linhas de trem começaram a ser abandonadas na década de 1940 com o declínio das principais empresas mineradoras. Desta forma, muitos dos trens acabaram, simplesmente, sendo deixados ali no meio do nada. Hoje, as carcaças enferrujadas dessas máquinas centenárias são o ponto de partida para o tour pelo Salar.

- Villa de Colchani: há 20 km do Salar, a excursão para nesta pequena vila, onde vivem e trabalham algumas dezenas de artesãos. É o lugar ideal para comprar lembranças - inclusive, óbvio, ítens feitos de sal.

- Hotel de Sal Playa Blanca: local em que paramos para fazer nosso almoço, trata-se do primeiro hotel de sal construído em todo mundo. Atualmente desativado, o cenário ainda impressiona: afinal, dos tijolos aos móveis, tudo é feito de sal. Em frente ao hotel, fica o "Monumento al Rally Dakar" (evento que tem o Salar de Uyuni como um de seus principais roteiros) e a “Plaza de Las Banderas”, local onde os turistas deixam bandeiras de países, cidades e mesmo times de futebol para recordar sua passagem.

- Isla del Pescado: ao todo são 33 ilhas que se erguem sobre a imensidão do deserto branco. O ponto final do tour de um dia é exatamente na mais famosa delas: a “Isla del Pescado”, que abriga cactos com mais de 10 metros - com destaque para um cacto com mais de 1000 anos!

- Outros: se o tour de um dia acaba na Isla del Pescado, o de três está apenas começando. Quem segue viagem, além de ver mais ilhas, vai se deparar com cenários deslumbrantes como a Laguna Verde, a Laguna Colorada, a Laguna Kalina, diversas espécies de flamingo, entre outros pontos inesquecíveis. Ah, e se você der sorte (eu não dei), em caso de chuva, o sal se transforma em "espelho": e bem, será como olhar o céu abaixo dos seus pés.




A mística Copacabana
Praia de Copacabana - Foto: Tamara Elliott 

Se o nome é ou não uma mera coincidência, eu não saberia afirmar, mas certamente o cenário nos lembra em algo a famosa praia brasileira, com direito, inclusive, à montanhas e uma cruz no alto de um morro. Se é bem verdade que a Bolívia ainda luta por uma saída ao mar, Copacabana é um dos destinos mais queridos pelos bolivianos no verão, pois é a praia mais bonita de todo o país. Mas o mais importante sem dúvida é sua localização. Afinal, a prainha de Copacabana é banhada pelo místico Lago Titicaca, e só isso já vale a visita. Considerado o lago navegável mais alto do planeta (3.810 m), o local é sagrado para os povos andinos que acreditam que foi em suas águas que nasceu a civilização inca.

Petri recomenda

- Praia: nem há muito o que dizer, simplesmente não há nada melhor que aproveitar a viagem pela Bolívia para descansar um ou dois dias, provar as comidas típicas e ainda alugar um pedalinho.

- Isla del Sol: ir até o Titicaca e não o navegar é quase uma heresia. Diariamente partem embarcações de Copacabana em direção à Isla del Sol - onde se acredita ter sido o primeiro local habitado pelos incas, numa viagem que leva em torno duas horas. Habitada pelo povo uro, descendente dos incas, a ilha ainda guarda muito do que era a vida na época, sobretudo no curioso sistema de irrigação. Além de uma extensa trilha, o local possui alguns barzinhos, um belo cais e o mais importante: construções e ruínas que datam do século XII.


Dicas

- Acomodação: La Paz conta com uma grande variedade de hotéis e hostels, mas recomendo ficar próximo à Igreja San Francisco ou à Plaza Martillo. Fiquei em três hostels diferentes durante minha estádia, com preços que variaram de R$10 à R$40. Ah, outra coisa importante é carregar sempre na mochila alguns rolos de papel higiênico, visto que normalmente os hostels não o oferecem. Já em Uyuni e Copacabana, recomendo buscar hospedagens com antecedência, já que o número de estabelecimentos não é tão grande.

- Alimentação: a Bolívia não conta com um controle sanitário rigoroso, portanto, se você costuma passar mal, evite comidas de rua. Uma boa refeição ou um lanche em restaurantes locais vai sair entre R$10 e R$30.

- Compras: para comprar recordações e presentes, como já dito, recomendo o Mercado de La Bruja, em La Paz, e a Villa de Colchani, em Uyuni. Copacabana conta com algumas feirinhas e lojinhas que se espalham no mercado central, mas a variedade e os preços não são tão interessantes quanto os das duas outras cidades.

- Altitude: mal-estar, dor de cabeça e tonturas são sintomas comuns, mas não abuse de sua resistência. Vá caminhando aos poucos e, se puder, recomendo experimentar o famoso chá de coca - ou mesmo mastigar suas folhas, pois além de patrimônio cultural indígena, essa planta aplaca os efeitos da altitude.

- Cotação: estudos mostram que 80% dos turistas que visitam a Bolívia são mochileiros. O número se explica, pois trata-se do país mais barato da América Latina. A cotação gira em torno de 2 bolívares para cada real, mas tudo (exceto bebidas alcoólicas) é extremamente barato.

 - Transporte: apesar de possuir estradas e ônibus precários, o valor das passagens e os cenários compensam muito. Uma dica importante é informar-se antes sobre as saídas de ônibus e a compra de passagens. Além dos ônibus lotarem facilmente, existem destinos que não contam com linhas todos os dias.

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