Conheça os encantos do Caminhos de Pedra, um roteiro pitoresco e centenário no Rio Grande do Sul

Na década de 1870, milhares de imigrantes vieram da Itália para o Brasil em busca de melhores condições de vida, influenciando diretamente a cultura de determinadas regiões de nosso país; entre os municípios de Farroupilha e Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha, uma estrada de 12 km mantém viva a arquitetura e o estilo de vida dessa época, como um verdadeiro museu ao ar livre
Foto de Diúlit Oldoni
"Árvores que dão salame, rios por onde corre vinho, frutos que nascem gigantes..." Se os boatos fantasiosos e promessas desta terra mágica soavam com um pouco de incredulidade aos ouvidos de grande parte do povo, a verdade é que a simples ideia de viver em uma região mais abundante era o suficiente para alimentar as esperanças até do mais cético dos homens. Era a década de 1870 e, sobretudo, o norte da Itália mergulhava em uma das maiores crises de sua história, enquanto passava de um modelo de produção feudal para um sistema capitalista. Com terras concentradas nas mãos de poucos proprietários, altas taxas de impostos sobre propriedades e a concorrência desleal com os grandes latifundiários, os pequenos produtores rurais  eram empurrados para a indústria, que ainda não desenvolvida completamente, não podia aportar tanta gente. O resultado? Milhões de desempregados e pessoas sem terra.
Do outro lado do Atlântico, o Brasil também passava por transformações profundas em um processo de abolição da escravatura e desenvolvimento colonialista. Com forte publicidade, oferta de terras e passagens pagas pelo governo brasileiro (que buscava mão de obra e a colonização de "vazios demográficos"), o "Paradiso chamado Brasile" chamava a população italiana para uma "nova vida". Famílias italianas inteiras enfrentavam assim uma aventura, que podia durar até 40 dias, atravessando o oceano para, com receio e muita esperança, aportar em uma terra estranha.
Hoje, passados 140 anos, desde que os primeiros imigrantes chegaram no Brasil, a Serra Gaúcha é onde a história e as tradições destes imigrantes seguem mais vivas. Muito embora a região tenha se industrializado e as cidades tenham crescido desordenadamente, a identidade da cultura italiana segue atraindo uma grande quantidade de turistas para a região. Ao final da cidade de Farroupilha, auto-denominada "berço da imigração italiana", e começo de Bento Gonçalves, município que concentra algumas das maiores vinícolas do país, encontra-se uma das melhores amostras históricas do tempo de colonização: o Caminhos de Pedra.

Caminhos de Pedra, um museu ao ar livre
Foto de Diúlit Oldoni
Localizado na linha Palmeiro, distrito de São Pedro, em Bento Gonçalves, o Caminhos de Pedra encanta até mesmo quem mora na região como nós, do Petri, atraindo anualmente mais de 100 mil visitantes. Patrimônio histórico do Rio Grande do Sul, a área concentra o maior acervo arquitetônico da imigração italiana em meio rural no Brasil, contando com 27 pontos de visitação (restaurantes, lojinhas, atelies, vinícolas familiares, museus, pousadas, entre outros) e 43 pontos de observação externa.
Idealizado pelo Engenheiro Tarcísio Vasco Michelon e pelo Arquiteto Júlio Posenato e criado com o auxílio do Conselho Estadual de Cultura e da Lei de Incentivo à Cultura do Estado do RS, o roteiro Caminhos de Pedra é um esforço para resgatar e preservar a cultura dos imigrantes que deram início a região da Serra Gaúcha na década de 1870. Após um levantamento acerca da localidade e visualizando sua riqueza arquitetônica e facilidade de acesso, a comunidade se uniu para recuperar esse trajeto que encontrava-se em abandono. Esforço que vem dando certo e que segue em atividade, visto que muitas construções ainda estão sendo recuperadas, o roteiro não busca somente um resgate arquitetônico, mas sim a manutenção cultural como um todo, contando com a promoção de dialetos, folclore, gastronomia, habilidades manuais, entre outros.
Para quem está na Serra Gaúcha, alugar um carro ou mesmo uma bicicleta, e reservar pelo menos um dia para se encantar e mergulhar na história e cultura local é garantia de um passeio inesquecível. Abaixo o Petri deixa um pequeno guia com nossos lugares preferidos, apresentando o que o roteiro tem de melhor: boa gastronomia, clima e construções pitorescas, muita história e, claro, muito vinho. Uma mera amostra das surpresas que estendem por essa histórica estrada construída em 1875 e mantida o mais intacta possível, como um grande museu a céu aberto uma ode aos imigrantes italianos e uma experiência de imersão cultural para todo visitante.

Onde comer
Casa Vanni Espaço Gastronômico | Foto de Fábio Becker
Pizza, lasanha, massas, molhos... A maior das tradições italianas é sem dúvida a sua calórica e saborosa gastronomia. De piqueniques à petiscos e almoços livres, como não poderia deixar de ser, o roteiro Caminhos de Pedra conta com uma ampla oferta de restaurantes e lojinhas com produtos coloniais. Abaixo uma lista de alguns lugares que visitamos e recomendamos:

Casa de Cucas Vitiaceri: um dos estabelecimentos mais novos da região é também um dos mais distintos. Como o próprio nome diz, a casa tem como carro chefe a cuca, uma espécie de pão recheado de origem alemã. Ao todo são mais de 20 sabores entre cucas doces e salgadas, feitas sempre na hora. O local conta ainda com um cardápio especial para café o café da manhã ou para o lanche da tarde, com batata recheada, carnes, copa, salame, queijos, frutas,  pães, geleias, espumante, café, sucos... E o melhor: nos dias de sol você pode desfrutar de um piquenique embaixo dos parreirais! Uma experiência especial para quem gosta de momentos de relaxamento e de comer sem pressa.
Ah, o lugar conta ainda com uma pequena lojinha com produtos naturais, que vão de geleias a vinhos e até cosméticos, sendo um bom ponto para comprar uma lembrancinha.

Casa Fracalossi: com a ampla opção de restaurantes, a verdade é que estivemos no Fracalossi por simples coincidência de horário - passávamos ali perto do meio dia - e preço, mas não nos arrependemos. Localizado no primeiro terço do caminho (no sentido Farroupilha - Bento Gonçalves), o Fracalossi é também um resumo de toda o percurso: um casarão histórico de pedra, atendimento atencioso e comida deliciosa e abundante, num rodízio interminável. No cardápio tudo que a gastronomia regional tem a oferecer: petiscos, sopas, massas, carnes, galetos, polenta, queijos, vinhos, entre outros.

O que ver
Casa da Ovelha | Foto de Diúlit Oldoni
Como caminhante e observador, para mim não há nada melhor no roteiro do que simplesmente percorrê-lo, tirar algumas fotos e conversar com os personagens locais. Mas para quem busca mais do que boas paisagens, existem experiências únicas ao longo de todo o trajeto, que vão desde parque de diversões — na nossa opinião com um valor um pouco elevado até o já citado piquenique. Abaixo os lugares indicados pelo Petri:

Casa da Erva-Mate: na primeira vez em que estive no roteiro, a entrada era gratuita. Hoje, existe uma taxa de visitação, o que torna o passeio menos atrativo para os gaúchos. Mas, para quem vem de outras regiões, conhecer um pouco desta que é uma das maiores tradições gaúchas é uma grande pedida. No lugar você aprenderá como o mate era moído antigamente, além de obviamente desfrutar de uma roda de chimarrão.

Casa Vanni: além de ser um dos restaurantes mais recomendados do trajeto, com destaque para uma mesa de tampo vidro improvisada sobre um poço, a Casa Vanni também é um espaço ideal para relaxar e descansar. O local conta com um pátio que literalmente se perde de vista, com direito a um riacho, puffs e redes, convidando para uma pausa e uma boa taça de vinho

Vinícola Salvati & Sirena: visitar a Serra Gaúcha sem conhecer nenhuma vinícola é como ir ao Rio de Janeiro sem pisar os pés na praia. Não tem como. Com uma arquitetura octonal, erigida com pedras basálticas irregulares extraídas da própria região sobre uma elevação de terra, a Salvati é uma boa opção para quem pretende levar algumas garrafas para casa ou provar no local mesmo, algumas das variedades de vinho mais importantes da região. Além de um atendimento para lá de simpático, por apenas R$ 10 você pode provar os vinhos finos da casa, como merlot, tannat e também vinhos de uvas rústicas resgatadas como peverella, goeth e barber.

Casa da Ovelha: passeio um pouco mais salgado, mas que vai agradar toda a família. Além de degustar queijos e outras delícias produzidas com leite de ovelha, o visitante tem a experiência de vivenciar a rotina de uma fazenda de ovinos, podendo inclusive alimentar as ovelhinhas. Para quem não quer pagar o roteiro guiado, o porão da casa conta com inúmeros produtos para venda.

Cantina Strapazzon: construída em 1880 com pedras irregulares e chão batido, um dos cenários mais pitorescos e antigos de todo o roteiro, a Cantina Strapazzon ficou famosa por servir de cenário para o filme "O Quatrilho". A cantina conta com visita guiada, onde o visitante aprende um pouco mais da região e da produção de vinho, além de poder provar produtos como graspa e vinho (o passeio custa R$ 10). Ao final, você pode visitar o porão de outra casa da família que conta com inúmeros produtos artesanais para a venda. Provamos e recomendamos o licor Amareto, produzido com pêssego.

Casa do Tomate: um dos principais ingredientes da culinária italiana, o tomate é o símbolo inusitado deste local. Aqui você encontra, além de um pequeno museu e um restaurante, uma grande variedade de produtos coloniais, com destaque, obviamente, a uma variedade imensa de molhos. Outro produto que merece destaque são os "refrigerantes artesanais" nos sabores laranja, limão e abacaxi, produzidos pelos moradores. Muito além de um produto inusitado com uma garrafinha vintage, o sabor é diferente de qualquer marca que você possa encontrar em supermercados.

Lembranças
Casa de Massas e Artesanato | Foto por Fábio Becker 
Quem é que não gosta de levar consigo uma lembrança para recordar de um lugar, ou de um momento especial, ou ainda para presentear alguém querido? Além das opções já citadas (vinhos, molhos, queijos, refrigerantes, cosméticos...) o Petri deixa mais algumas dicas de lugares para visitar e quem sabe encontrar uma recordação especial do Caminhos de Pedra.

Casa da Confecção: primeira parada no sentido Farroupilha - Bento Gonçalves,  a casa da confecção se destaca por uma enorme pipa de madeira (que tinha originalmente a capacidade para armazenar 140.000 litros de vinho) transformada em espaço de exposição. No porão do estabelecimento você encontra gorros, casacos, blusões, cachecóis... enfim, tudo para lembrar do frio serrano.

Casa das massas e artesanatos: um grande casarão de madeira com mais de 100 anos de história. No seu interior é possível comprar as mais diferentes lembranças, desde massas congeladas até confecções e souvenires em geral.


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Observações
Rota: o roteiro acima foi criado de forma ordenada no sentido Farroupilha - Bento Gonçalves, de acordo com nossa visita, embora a numeração seja no sentido contrário.

Horário: o roteiro Caminhos de Pedra funciona 365 dias por ano. Os estabelecimentos ficam abertos das 9h às 17h30.

Mais informações: 55 (54) 3455-6333 - informacoes@caminhosdepedra.org.br



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